Eu procuro uma palavra que me caiba, que me seja inteira, que me sirva de alento, me cubra de sentido e me transforme em poesia. Preciso encontrar uma palavra que salve uma vida e que me diga como é que se faz para enfrentar os dias e encarar as noites sempre tão cheias da sua falta. É tanto amor ainda para declarar, você nem sabe. É tanta vida que eu queria viver para você. Tanta existência para se resumir em exclamações. Há tanto de você em mim, ainda, para verbalizar. E agora, esse tal de amor resolveu teimar comigo como se não bastasse me enlouquecer aos poucos – dizendo que não vai embora e pronto. Amor estúpido, que sai por ai tomando decisões, escolhendo um nome, um endereço, um rosto e um coração só para me causar saudade: Eu já usei de tantos amanhãs e, talvez, ainda precise de tantos outros para me convencer de que tudo passa. Ainda bem que tenho a poesia para enfeitar os meus silêncios. Ainda bem que a gente se encontrou um dia, né? Eu sei bem como é essa vida sem você comigo. Imagino como ela seria se nossos dedos, nossas pernas, nossos braços e nossos corações ainda estivessem entrelaçados. Mas, eu não consigo imaginar essa minha vida sem esse nosso encontro. Acho isso tão bonito, que chego a chover em melodia. Eu acho que todo amor merecia ser recíproco, sabe? Desde logo me ensinaram que é pecado desperdiçar. Ei, meu bem. Só para garantir que você não vai esquecer – em meio a esse inverno que faz todo domingo – eu te amo.
O eterno me apresenta ao amor, tão incerto e longo. Ajusto o coração no tempo e lá está ele: azul, preguiçoso, sobre um pé-de-infinito, demorando nos afetos. Tudo que lhe dei, dei com a glória do único e do último, do primeiro e do melhor. Alguns amores nos ensinam eternidades. Em poucos segundos entendi que, em mim, as suas não ficariam. Você não foi feita para ficar. Você é vento. Vento que murmura. Vento que mistura. Vento que deixa. Você é o beco mais difícil do meu poema. Poema com saída. Não aprendi o ponto que te finaliza. Acendo uns atalhos. Te abrigo nas asas desse abraço. Te escrevo alguma liberdade. Sua ausência é o meu mormaço. O que partiu de mim, em algum outro lugar de ti ficará, me reproduzirá. Tudo que fomos, se iluminará com força e alguma distração pouca. E seguirá, acima de nós, num célere canto de para sempre. Meu infinito se deita. Você descansa. Duraremos.
Visto meus nomes conforme a ocasião; versões que me completam e se despedem de mim; pois há egoísmos muitos que me visitam e lembranças tantas que me prendem. Há medos ainda que eu ensine sobre a coragem. Aprendi a fugir sem ter partido, amar sem ter amado e a ferir sem me doer. Confesso sempre meus primeiros degraus e deixo o mais profundo para depois. Se poucos são os corações que sabem pelos silêncios o que os colorem, eu nada mais escuto. Guardo promessas fora da validade numa Alma fora de moda. Sinto uma pretensa sorte por escolher aqueles finais felizes em que não estou. Por isso faço asas nas palavras enquanto eu de verdade me arrasto. Afinal, quantas são as formas de não se amar? Quantos não são os enganos de ser amor? Faço da vida inteira uma licença poética para ser livre, apesar das grades da prisão que enfeito e diariamente escolho. Sou prosador de incompletas verdades sobre mim, fazendo das mesas de bar meus mais bonitos palanques. Sou a flor que não se incomoda com seu espinho. Sou Igreja que permitiu morar o demônio. Se toda luz também sabe seu contrário; sou janela aberta ao reino do infinito, mas sem ninguém do outro lado. Vivo apenas no real dos seus olhos; sou aquele que desconhece a poesia. Sou uma distância entre o espírito e a verdade, e que pelos outros passa apressado e desapercebe o Amor que me cabe. Escrevo como alívio, pois eu sou a traição do real; faço juras em meu nome mas que nunca cumprirei. Sou um estrangeiro na própria casa; aceito elogios e olhares sem merecer. Gosto de ser aquilo que não sou o tempo inteiro. Sou a bipolaridade dos meus avessos. Sou a natural contradição de mim mesmo. Prazer, eu sou o Ego.
Bem-aventurados aqueles que namoram a clareza real das coisas, e que sabem no que verdadeiramente se descansa o coração: o sentir-sereno nas marés de nós. Quando desaprendem os olhos a ver os confusos reflexos da vida, aí então passamos a enxergar o mais além do nosso próprio tamanho. Assim, as verdades-de-nós namoram com as maturidades que nos ensina o tempo, em que adormecer desnecessários medos e escolher melhor nossas batalhas serão inevitáveis escolhas apenas e quando a Alma colecionar suficientes cicatrizes. Não alcança o céu a bela árvore sem antes doer sua semente. Cumpre ao Amor em nós como fruto, afinar o nosso olhar, despreocupando-nos com o que somos fora para amanhecermos por inteiro dentro. Os olhos diminuem o mundo. O Amor o revela na Alma.
Sou meus cigarros à sua espera; sou meu café e mais dezenas de canais sem nada demais e que não me distraem. O que me resta hoje é uma madrugada infinita, insone e triste; em que vou preenchendo meus vazios e cultivando minha desmedida aflição, sem suas palavras a me falar sobre a vida, sem suas cores a brilhar os meus olhos, sem sua música para os meus ouvidos. Pois era você quem tanto se fazia presente aqui dentro a me distrair da vida lá fora. Tantos anos contigo e desde o começo você me encantou. Não te namorei porque isso era impossível, você bem sabe. O tempo passou e incontáveis foram os meus sorrisos, minha inteira entrega e fiel devoção. Os muitos problemas que tivemos nunca diminuíram minha admiração ou minha atração por você. É sedutora como jamais pensei que pudesse ser. E entre altos e baixos, agora era demais. O teu silêncio tornou minha casa insuportável. Sua ausência denunciou que eu não sei mais o que fazer longe de ti. Se você não retornar até amanhã, não saberei dizer o que será de mim, ou dos meus dias seguintes. Vou ligar para quem deva ouvir meu desespero. Gritar minhas ruínas. Exigir o tempo que não volta mais.
Estar vivo não é o mesmo que viver. Existir para ganhar dinheiro é estar vivo. Mas existir para, com o dinheiro, tornar a vida de alguém melhor, é viver. Existir para repetir modelos e adequar-se a padrões é estar vivo. Mas existir para a novidade e para a liberdade, é viver. Estar vivo depende apenas de funções fisiológicas. Viver precisa do encantamento do amor.
Ninguém pode viver sem amor. O amor é cheio de contradições. Ao mesmo tempo, nada é mais coerente. É a única fortaleza que enfraquece. É o único poder que fragiliza. É a única grandeza que diminui. É o único laço que ao invés de prender, liberta. É a única ordem que desorganiza. Mas nisso não há problema porque quem ama não quer regularidade, só quer amar. Você sabe que ama quando o simples fato daquela pessoa existir te faz bem. Quando percebe que sem ela sua vida não teria rumo ou valor. Claro, o amor tem seus riscos. Mas risco imensamente maior é passar pela vida sem amar. Porque ao fim, dificilmente alguma coisa terá valido à pena. Quem age por amor não terá a sensação de tempo perdido, mesmo diante de resultados ruins – porque o amor não espera o troco.Quando achar que já é o suficiente, dê mais um beijo. Diga mais uma vez “eu te amo”. Solte mais um sorriso. Fique mais vinte minutos e dê mais um último abraço. Tratando-se de amor, é melhor pecar por excesso. Não, não espere grandes ocasiões para dizer “eu amo você”. É a declaração que tornará qualquer ocasião grande. Não há infelicidade maior que silenciar nesse momento, porque o mundo fica pequeno e sem graça. Quando não souber quais palavras usar para descrever o amor que sente, use as mais simples. Afinal, é na simplicidade que mora a verdade singela. Se ainda assim for incapaz, não se preocupe. O coração tem um recurso, enunciá-las com os olhos. Ama quem pode ferir, mas prefere curar. Quem pode oprimir, mas prefere libertar. Ama quem pode punir, mas prefere salvar. O amor orienta a liberdade. A diferença entre paixão e amor? Quem está apaixonado sente que algo lhe falta. Quem ama sente-se completo. Acredito no amor porque só ele pode tornar a vida amável. “Pecado” é passar pela vida sem amar intensamente. “Eternidade” é todo o tempo com aqueles que você ama. Importa que se tenha com quem repartir a vida. São os relacionamentos que dão sentido e significado para viver. Na vida, a questão não é o sofrimento ou a felicidade. Trata-se de ter por quem sofrer e por quem sorrir.
Nos acostumamos rápido. De tanto vermos e sentirmos as mesmas coisas, de contemplarmos quase sempre a mesma paisagem e o mesmo horizonte, acabamos nos desencantando. Nada de extraordinário nos chama atenção. Passamos a andar com a cabeça baixa, com os olhos presos ao chão. É quando tudo vira mais do mesmo. Rasga-se o dossel que envolvia a atmosfera de nosso universo particular. Sorte daqueles que, em meio a rotina, reencontram-se com a beleza. Nada mais pode salvar uma vida, porque o que é a beleza senão a sombra de Deus no mundo? Já aconteceu comigo. Eu andava num campo de cabeça baixa, sem prestar atenção no que estava ao meu redor. Desatento. Acostumado. Tudo era igual mesmo, portanto olhar para o meus pés fazia mais sentido. O esforço de manter a cabeça erguida era inútil. De repente alguma coisa forte, muito forte, me fez olhar para frente e fitar o horizonte. Olhei e demorei para entender a imagem nova que se desvelava para mim, fazia tempo que não a contemplava. Ela estava lá, a beleza. E tudo era feito dela: o chão, o sol, o tempo e o horizonte. O ar, e a cada respiração o mundo ficava mais bonito. Aquela força incrivelmente bonita me encheu de coragem para caminhar, para ir buscar o horizonte. A atmosfera sacralizou-se novamente. O encanto repousou sobre mim. O mundo que tornara-se ordinário voltou a ser extraordinário. Tudo foi reencantado, o novo e o antigo, porque não há limites para a beleza. Ela perpassa todas as dimensões de todos os tempos. A beleza é uma gratuidade do acaso. É preciso sensibilidade para percebe-la, porque surge em lugares inesperados, quando menos esperamos. Não existe força maior do que a que emana dela. Torna a cena linda demais para que a vida seja qualquer coisa. E ela por si só basta como explicação. Valeu a pena porque foi uma bela experiência. É um empoderamento estético, um valor autônomo. Quase sempre procuramos respostas na razão. É a ela que dirigimos nossas perguntas. Acontece que muitas vezes não se trata de pensar, mas de sentir. Não se trata da razão, mas da beleza. Ela coloca na experiência o valor mais alto, sagrado e inegociável. É sobre isso a nossa existência. Menos sobre pensar a razão de estarmos aqui e mais sobre aproveitar a oportunidade. Por isso é tão importante o amor, porque é a beleza de amar que faz tudo valer a pena. É a experiência estética que emprega sentido à vida.
